“Peguei o resultado positivo para HIV com a mesma resignação com que se recebe um boletim vermelho na escola. Restava digerir a fatalidade e perceber, de verdade, o que eu estava sentindo. Mas eu não estava sentindo nada. Nada. Eu não era nada e sequer me preocupava com meu futuro. Minhas intenções de ser tudo o que um dia sonhei já não existiam. Se existiam estavam perdidas na rebordosa da minha cabeça. Eu sequer tinha tido tempo de vida para sonhar alguma coisa. Era novo demais. Tinha 19 anos! Mal começara a fazer sexo e já estava infectado! Que merda! Eu não sentia nada. Eu não pensava em nada. Eu era um grande tubo de ensaio cheio de vírus.”
Katia Deutner

Ops! Aprendendo a viver, com aids Bernardo Dania Guiné Editora Autêntica 204 páginas 20 reais Descobrir que está com Aids aos 19 anos. Essa é a história de Bernardo Dania Guiné. Um garoto inteligente e com um senso de humor afiado que relata no livro "Ops! Aprendendo a viver, com aids", seus obstáculos para superar a doença e continuar a viver. "Eu sequer tinha tido tempo de vida para sonhar alguma coisa. Era novo demais. Tinha 19 anos! Mal começara a fazer sexo e já estava infectado! Que merda!". Assim é Bernardo. Inteligente, com um senso de humor afiado e soropositivo. O garoto que acabara de sair da adolescência e já se via com um novo desafio a vencer: viver com Aids. Bernardo começa seu livro contando como seu pai ficou sabendo sobre sua homossexualidade e qual foi a reação: um chute na bunda no meio da rua. De preconceito em preconceito, o autor foi descobrindo a vida adulta. Namoros rápidos e sem muitos sentimentos. Vida agitada em boates gays. Sintomas começando a aparecer e muitas revelações: namorava um soropositivo e já estava infectado desde os 16 anos. A primeira doença oportunista e as primeiras confissões. A mudança para Brasília e a doença da tia: fatos relatados sem meias palavras ou lamentações. Tudo muito sentido e vivido. "Fiquei sem entender que raio de coisa era aquela que podia ser aberta, levantada, puxada. Eu e a Xuxa na minha cabeça, em plena mesa de cirurgia: 'todos dançam, pegam, esticam e puxam!'". Assim é Bernardo. Irreverente até para contar como foi sua cirurgia para retirar um gânglio do pescoço, decorrente de uma tuberculose ganglionar. Com um forte senso de humor, Bernardo conta como foram os primeiros namoros após a doença: dizer logo no início "Oi, eu tenho aids. Você está acompanhado?", ou esperar para contar depois? Não. A situação era difícil, mas tinha que contar antes de envolvimento maior. A luta e a força de sua mãe, que o ajudou ao mesmo tempo em que cuidava da irmã com câncer. A grande amiga Virgínia e o companheiro Rogério, que conheceu quando lançou suas poesias na Internet. Pessoas importantes para a superação dos obstáculos de sua vida. Bernardo termina seu relato pedindo aos leitores para visitar, o site "Ser Positivo" (www.serpositivo.cjb.net), do qual é editor de conteúdo. "Fatos são fatos: do ciclo de vida e morte nunca me foi dado escapar, mesmo antes da aids. Desculpe-me, mais uma vez. Quisera nunca ter mentido". E dá para negar isso?
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