
A obrigatoriedade do ensino de filosofia como disciplina nas três séries do Ensino Médio brasileiro faz renascer objeções: não haveria professores de filosofia suficientes ou bem formados; ela seria uma disciplina “elevada” demais para os alunos; a filosofia seria menos útil ou atual que a ciência ou a tecnologia… Muitos contra-argumentos apresentados para defender a filosofia não esclarecem a questão: ela iria lograr, como se fosse mágica e dona exclusiva do pensamento, a formação de cidadãos críticos, responsáveis ou democráticos. Ou então ela conseguiria, em termos muito próximos do discurso publicitário, formar seres criativos.
Os textos que compõem o presente livro não oferecem respostas rápidas ou fáceis. Não estão escritos “a favor ou contra” ou para convencer ninguém, mas ajudam a pensar algumas questões básicas, cruciais, que qualquer interessado na filosofia deveria se colocar para pensar seus alcances educacionais. Embora as posições aqui apresentadas sejam diversas, algumas conclusões interessantes podem ser extraídas: não é evidente ou certo que a filosofia possa ser ensinada, muito menos numa instituição como a escola, que a maioria dos jovens freqüenta porque deve fazê-lo, mas não encontra sentido algum nela com os dramáticos problemas que tem a escola brasileira atual, em particular a escola pública. E também não é seguro que ela possa ser aprendida, porque não há como garantir uma relação afetiva com o pensamento, num contexto em que o pensar não é estimulado nem valorizado. A conclusão é paradoxal: embora incerto, o ensino de filosofia é também imperativo, pelo menos para todos aqueles que pensam que a filosofia tem um compromisso insubstituível com a vida, com a transformação do que se pensa e do que se sabe para, digamo-lo com Nietzsche, poder tornar-se “o que se é”.
Siomara Borba
Siomara Borba é professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Foi pesquisadora do CNPq e do Programa Prô-ciência. Coordenou e participou de diversos projetos de investigação, com particular interesse para as relações entre conhecimento e educação. Foi coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UERJ e parecerista ad-hoc e representante no comitê científico do Grupo de Trabalho em Filosofia da Educação da Associação Nacional de Pós-Graduação em Educação (ANPEd).
Walter Kohan
Walter Omar Kohan é Pós-Doutor em Filosofia pela Universidade de Paris 8. Professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) do Brasil e da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), recebeu, em 2008, o Prêmio “Cientista de nosso Estado” na área Educação. Publicou mais de cinqüenta artigos em periódicos especializados e é autor ou organizador de trinta livros, no Brasil e no exterior. Seus textos estão publicados em espanhol, francês, italiano, inglês, finlandês e húngaro, além do português. Entre 1999 e 2001 foi presidente do ICPIC (International Council for Philosophical Inquiry with Children). Participou como conferencista de mais de cem eventos no Brasil e no exterior. Atualmente dirige projeto de pesquisa com alunos de graduação, mestrado e doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação da UERJ e coordena projetos interinstitucionais com universidades de Brasil e da França. Participa em conselhos editorias de diversas publicações acadêmicas internacionais e é co-editor de childhood & philosophy. Principais publicações: Sócrates, el enigma de enseñar (Buenos Aires: Biblos, 2009); Filosofía, la paradoja de aprender y enseñar. (Buenos Aires: Libros del Zorzal, 2008); Infância, estrangeiridade e ignorância (Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2007); Infância. Entre educação e filosofia. Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2003); Filosofia na Escola Pública. (Petrópolis, RJ: Vozes, 2000; com Bernardina Leal e Alvaro Ribeiro).
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