
“Os peixes inundavam a boca. Meia dúzia de acarás foi enfiada pela boca do morto, com os rabos deixados para fora, presos por uma espécie de cambão de arame que varava as bochechas, num arremedo de anzol.
O corpo boiava meio de lado, massa inerte entre a marola e a sujeira da lagoa, mordiscado por carazinhos. Não notei logo o inusitado da boca – o pescador foi quem me apontou o detalhe grotesco – pois o estado terrível do corpo absorvia toda a atenção. A pele do tronco havia sido arrancada a partir de cortes regulares na base do pescoço e nas dobras das axilas. ‘Talho de taxidermista’, pensei comigo, numa sensação misturada de assombro e encantamento.”
Marcus Freitas
Marcus Freitas nasceu em 1959 em Belo Horizonte, onde vive. Casado, tem uma filha de sete anos. Mora no bairro histórico da Pampulha, cartão-postal da cidade, onde se passa a ação deste Peixe morto. Além de ficcionista, poeta e ensaísta, leciona na Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, do premiado ensaio Hartt: expedições pelo Brasil Imperial, 1865-1878 (Prêmio Jabuti 2002, Menção Honrosa na categoria Biografia) e de No verso dessa canoa, coletânea de toda a sua produção poética entre 1993 e 2005. A publicação, pela Autêntica Editora, de Peixe morto, um dos ganhadores do Prêmio Petrobras Cultural 2007 na categoria literatura, marca sua estréia no romance.
Artigos e resenhas sobre este livro:
Gustavo

Ótimo livro, excelente autor, uma ambientação fantástica da cidade de Belo Horizonte, emocionante pra quem ja conhece, reveladora pra quem ainda nao conhece.
Caso oblíquo
Gritos no vazio - A História de Mary Bell (porque crianças matam)
Pequenos Milagres
Um trem chamado desejo